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Agentic Media··13 min

Agentic media em retail media: a arquitetura de input que separa decisão de ruído

A indústria global de retail media ultrapassou US$ 170 bilhões em 2025 e a aquisição da LiveRamp pela Publicis por US$ 2,5 bilhões foi apresentada com uma justificativa explícita: construir "data co-creation" para tornar agentes de media mais inteligentes. A pergunta que essa transação deixa em aberto, e que ainda não tem resposta operacional clara em nenhuma região do mundo, é mais técnica do que estratégica: o que exatamente um agente precisa receber como input para que sua decisão tenha validade causal, e quem está construindo essa camada de input em retail media multi-plataformas?

O que é agentic media — e por que automação não é o "agent" de fato

Agentic media descreve um sistema que recebe um objetivo, decompõe esse objetivo em decisões intermediárias, executa ações em sistemas externos via API, observa o resultado, e re-otimiza em ciclo fechado — sem intervenção humana entre passos. A diferença em relação a RPA (Robotic Process Automation) é a presença de uma camada de decisão probabilística entre input e output (ação). A diferença em relação a um copilot é que o agente fecha o loop sozinho: o copilot sugere, o humano aprova, o sistema executa. No agente, a aprovação humana ou desaparece ou se desloca para o nível da política (regras de orçamento, guardrails, listas negativas), não da decisão individual. A diferença em relação a um DSP tradicional com bidding automatizado é o escopo: o DSP otimiza dentro de uma campanha pré-configurada por um humano; o agente decide quais campanhas existir, em que rede, com que orçamento, e quando encerrá-las.

A primeira campanha publicamente identificada como totalmente autônoma de ponta a ponta em mídia digital foi anunciada em 15 de dezembro de 2025 pela PubMatic em parceria com a agência Butler/Till, para a marca Clubtails do grupo Geloso Beverage. O caso é instrutivo pela arquitetura: o brief foi submetido em linguagem natural via Claude (Anthropic), interpretado pelos agentes da PubMatic, traduzido em plano de mídia em segundos, ativado em CTV programático, e segue otimizando em produção. A PubMatic reportou redução de 5,5x em custos de supply chain, 87% de redução em tempo de setup, e 70% de aceleração na resolução de incidentes. A camada técnica que permite essa coordenação entre agentes de diferentes empresas é o AdCP (Ad Context Protocol), um protocolo aberto mantido pela AgenticAdvertising.org. Sem protocolo compartilhado entre agente de demanda e agente de oferta, o ciclo não fecha — e é exatamente essa ausência que define o atraso em retail media.

A camada de input é três camadas, e nenhuma delas é o agente

Quando um agente recebe um objetivo de campanha em retail media — digamos, maximizar venda incremental de uma SKU específica de CPG em um conjunto de redes — ele precisa de três entradas distintas para que sua decisão tenha valor. A primeira é identidade: a capacidade de reconhecer que o mesmo consumidor que viu o anúncio na rede A é o mesmo que comprou na rede B, ou que o público exposto em Walmart Connect tem sobreposição mensurável com o público exposto em Albertsons Media Collective. A segunda é mensuração: uma régua causal compartilhada que diga, para cada rede, qual foi a venda que não teria acontecido sem o anúncio, com janelas de atribuição, regras de dedupe, escopo de conversão (online apenas, online+offline, atribuído ou incremental) padronizados. A terceira é inventário: a disponibilidade em tempo real, com preço de leilão atual, formato disponível, audiência elegível, em cada rede onde o agente pode comprar.

Cada uma dessas camadas é uma engenharia separada, com fornecedores distintos, padrões distintos, e estados de maturidade distintos. O agente é apenas o consumidor dessas três camadas. Construir um agente sem ter as três resolvidas é construir um motor de decisão sobre um substrato instável — o agente vai decidir, mas a decisão será informada por inputs ruidosos, e o output será ruído com aparência de evidência. Esse é o ponto que separa um piloto bem-sucedido em uma rede só de uma operação agentic em multi-RMN.

O ecossistema americano está construindo as três camadas em paralelo

Nos Estados Unidos, a camada de identidade cross-rede está sendo concentrada em três players independentes. A LiveRamp, agora da Publicis, conecta mais de 25.000 domínios de publishers e mais de 500 parceiros de tecnologia e dados. A InfoSum e a Neutronian completam o quadro como fornecedores de clean rooms interoperáveis. A tese da aquisição, declarada pela Publicis em 15 de maio de 2026, é precisamente que "data co-creation em ambientes seguros" é o pré-requisito para agentes inteligentes — uma forma elegante de admitir que sem resolução de identidade compartilhada, agentic media não existe em escala multi-rede.

A camada de mensuração está sendo padronizada por dois corpos normativos. O IAB e o MRC publicaram em janeiro de 2024 a Retail Media Measurement Guideline, primeira régua americana para audiência, viewability e métricas de entrega. Em 3 de novembro de 2025, o IAB e o IAB Europe publicaram a Guidelines for Incremental Measurement in Commerce Media, que define incrementalidade como "o impacto causal do marketing identificando os resultados de negócio adicionais diretamente impulsionados por uma campanha ou tática, comparados ao que teria acontecido na ausência de atividade de marketing" e categoriza quatro famílias de método: experiment-based, model-based counterfactual, econometric, e hybrid proxies. Cada método é avaliado por força causal, escopo e aplicação apropriada. Pela primeira vez existe um documento que dá ao agente uma régua para escolher entre métodos de mensuração de forma fundamentada.

A camada de inventário está sendo unificada via APIs. O caso anunciado em 30 de abril de 2026 entre Kevel, Dollar General e The Trade Desk é o mais limpo: inventário onsite da Dollar General passa a ser comprado pelos mesmos compradores que compram offsite no TTD, com mensuração consistente entre os dois lados. O teste com clientes de managed service começa em junho de 2026, com disponibilidade ampla prevista para o terceiro trimestre. Albertsons Media Collective, em 6 de janeiro de 2026, lançou um framework de incrementalidade in-store que usa quase 60 variáveis para matched-market control e roda em test/control de loja contra loja — a primeira régua nacional consistente para mídia em ponto de venda físico. Em paralelo, a Instacart expandiu em novembro de 2025 sua acreditação MRC para a Carrot Ads, levando métricas verificadas a mais de 240 sites de e-commerce parceiros, e tornando-se uma das poucas RMNs com chancela MRC sobre impressões, cliques, CTR e impressões viewable.

A leitura conjunta dessas três frentes é simples: o ecossistema americano não está esperando o agente para depois construir o input. Está construindo input e agente em paralelo, com a expectativa explícita de que o agente só será útil quando os três substratos estiverem disponíveis como serviço padronizado. Latam segue o mesmo padrão, estamos construindo e cada rede tem o seu próprio agente individual.

Decisão e ação estão mais à frente do que o input sugere

A Amazon reportou no unBoxed 2025 que advertisers usando Performance+, sua solução de campanha algorítmica em DSP, atingiram 51% de melhoria em custo de aquisição em média comparada a campanhas legadas. Blueair (Unilever) registrou 50% de redução em CPA usando Amazon Ad Tag combinado com Performance+. H&R Block, na temporada de impostos de 2025, registrou 35% de melhoria em CPA e 144% de lift em conversão full-funnel. Performance+ não é um agente no sentido técnico estrito — é um sistema de bidding automatizado com camada preditiva — mas estabelece o benchmark de redução de etapas operacionais que o mercado passa a esperar.

A Walmart Connect anunciou em 6 de janeiro de 2026 o Marty Ads Agent, super agente conversacional para Sponsored Search, em beta para todos os advertisers em 2026. O caso mais documentado de retorno operacional é o Automated Creative Generator, que reduziu tempo de produção criativa em aproximadamente 80% entre agosto e outubro de 2025. A Criteo lançou em fevereiro de 2026 o Agentic Commerce Recommendation Service, com 60% de melhoria em relevância de recomendação em testes comparada a serviços baseados apenas em descrição de produto. A Criteo opera sobre uma base de 720 milhões de shoppers ativos diários, 4,5 bilhões de SKUs, e US$ 1 trilhão em transações anuais — escala que dá ao motor de decisão um sinal raro fora do duopólio Amazon-Walmart.

A camada de decisão tem chassi. A camada de ação tem APIs. A camada de input ainda está fragmentada, e essa é a tensão que define o próximo ciclo competitivo.

Brasil e LATAM: o estado de cada camada e a oportunidade de leapfrog

Retail media na América Latina movimentou US$ 2,6 bilhões em 2025, com crescimento superior a 40% ao ano segundo a EMARKETER, e projeção de 28% ao ano até 2028 — 2,4x mais rápido que o crescimento de digital advertising regional. Quase metade das RMNs latino-americanas foram lançadas em 2024, mais do que entre 2017 e 2023 somados. Brasil, México e Argentina concentram 85% das vendas de e-commerce da região. O Mercado Ads cresceu 73% em receita ano contra ano no primeiro trimestre de 2026, com a empresa atribuindo o avanço diretamente a "investimentos em AI no setup, targeting e mensuração para sellers". É o crescimento mais rápido entre os players regionais.

A camada de identidade na região é fragmentada por desenho. Cada um dos grandes — Magalu, Mercado Livre, Carrefour Brasil, Americanas, Grupo Pão de Açúcar, etc — opera seu próprio ambiente de first-party data, em geral sem interoperabilidade com os concorrentes. Clean rooms próprios existem, mas ainda são bem caros e só acessível para alguns grandes anunciantes. Para um anunciante de CPG que precisa entender sobreposição de audiência entre Magalu e Mercado Livre, não há resposta tecnológica trivial hoje.

A camada de mensuração começou a se mover em 2026 mas não há ainda um documento equivalente ao IAB Retail Media Measurement Guideline americano de janeiro de 2024, nem ao Incremental Measurement Guidelines de novembro de 2025. Cada ecossistema brasileiro segue operando com sua própria janela de atribuição, sua própria definição de venda atribuída, e sua própria régua de incrementalidade — quando há régua.

A camada de inventário é a parte mais madura da região. VTEX adquiriu Newtail em janeiro de 2025 consolidando posição em retail media tech. Topsort opera infraestrutura LATAM. Kevel fechou recentemente com Nubank. Existe ferramental local funcional, mas falta a integração cross-rede via API padronizada para que um agente possa comprar simultaneamente em múltiplas plataformas regionais com mensuração consistente. Stakio está nascendo com esse objetivo.

O ativo regional que distorce essa equação é o PIX e o Open Finance. Em 2024, o PIX processou 63,8 bilhões de transações, com crescimento de 52% sobre o ano anterior, e R$ 26,9 trilhões em valor (fonte: Banco Central do Brasil, dados consolidados 2024). Mais de 70% da população brasileira é usuária ativa. Para retail media, o PIX é um sinal de conversão que conecta mídia digital a transação econômica em tempo real, com cobertura de população que nenhum sistema americano oferece. Se identidade cross-rede em mídia for resolvida em conjunto com identidade transacional via Open Finance, Brasil ganha um vetor de mensuração causal que países sem PIX precisariam construir do zero.

O custo invisível: ruído com aparência de evidência

A pergunta operacional que faltava resposta consolidada até recentemente é: quanto custa para um anunciante operar agentes sobre uma camada de input ruidosa? O estudo publicado em 2025 pela Ovative Group em parceria com o Albertsons Media Collective e professores da Kellogg School of Management at Northwestern University analisou 42 campanhas de retail media e encontrou que iROAS reportado entre redes pode variar até 6,5x para a mesma campanha dependendo apenas de escolhas metodológicas, e que 83% das campanhas analisadas mudam de positivo para negativo quando a metodologia muda. Não é uma diferença marginal entre redes; é uma inversão de sinal econômico.

Cara Pratt, presidente Global Retail and Media da Circana desde maio de 2025, sintetizou a consequência: "Sem reconstruir confiança no lado da mensuração, essa indústria vai desacelerar em crescimento" e "se marketers não estão confiantes no ROI e nos resultados de negócio, velocidade e camada de dados não importam." Matt Voda, CEO da OptiMine, vinha articulando essa tese desde antes do ciclo agentic: "As redes de retail media estão reivindicando crédito enorme por impulsionar vendas, mas estão ignorando um aspecto fundamental: essa venda teria acontecido independentemente do anúncio?" Mais recentemente, Voda estendeu o argumento para agentic commerce: "Para agentic commerce funcionar, as 'cabeças' de IA precisam de catálogo de produto, inventário, promessa de entrega e informação de fulfillment — basicamente tudo o que é necessário para garantir que pedidos sejam entregues. Comércio agente-habilitado liderado por IA saiu da experimentação para a execução. Os varejistas que ganharem o próximo ciclo serão os que operacionalizarem inteligência ponta-a-ponta — descoberta, compra, fulfillment — em escala."

Ali Miller, General Manager de Advertising na Instacart, descreveu a postura operacional necessária diante dessa incerteza: "Com agentic AI, estamos tão cedo no entendimento do que consumidores vão se sentir confortáveis em fazer, em que escala, com que propósito, que o caminho é experimentar e aprender — e olhar lateralmente para o ecossistema de ads, de bens de consumo e de e-commerce, para entender onde podemos ir juntos." Não é uma fala de evangelismo; é uma fala de operadora que sabe que decisão automatizada sobre input não verificado é responsabilidade ampliada, não eficiência.

A 71% dos advertisers nos Estados Unidos, segundo a ANA, incrementalidade já é o KPI mais importante em retail media. Mas 55% identificam a falta de padronização entre plataformas como o maior desafio, e a maioria reporta preocupação com disponibilidade, confiabilidade e tempestividade dos dados de mensuração das RMNs. A camada de input não é uma preocupação teórica de quem escreve sobre o setor — é a queixa operacional declarada de quem opera dentro dele.

A pergunta para CMOs e líderes de mídia em Brasil e América Latina

O ciclo agentic em retail media não vai acontecer regionalmente sem que as três camadas de input sejam construídas em paralelo. Identidade cross-rede demanda ação coletiva entre redes concorrentes ou a entrada de um operador independente. Mensuração demanda padronização institucional, com IAB Brasil agora com mandato formal por meio do Comitê de Mensuração 2026. Inventário demanda APIs interoperáveis entre VTEX, Topsort, Kevel, motores de Magalu Ads, Mercado Ads, Amazon e dos demais varejistas com rede própria.

A janela competitiva regional não está em copiar o agente americano. Está em construir, com leapfrog deliberado. O agente vem depois e vem com vantagem se chegar para operar sobre input já organizado.

Qual será a primeira coalizão entre plataformas brasileiras a publicar um guideline conjunto de mensuração causal antes do final de 2026, e qual será o primeiro grande anunciante no Brasil a condicionar verba multi-plataforma à existência dessa régua?